terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Supresa!

Não há nada melhor do que ser surpreendido por uma festa surpresa. Saber que enquanto você estava fazendo suas atividades normais do dia a dia, havia pessoas preparando algo de bom especialmente para você. Isso é fantástico!
Entretanto, a vida nem sempre prepara surpresas boas. Talvez elas nos levem a descobertas, e muito embora, sejam em sua maioria decepcionantes, são profundamente positivas. Elas demonstram que parte do nosso EU ainda está num processo inocente de sonolência. Então num determinado momento nosso intelecto desperta, e para isso damos o nome de susto. Por alguns instantes a mente humana não sabe como reagir àquela novidade intrusa. Um grito, falta de ar, pernas bambas. Talvez são essas as nossas reações diante do inesperado. A sonolência da rotina nos leva a inocente percepção que nada nos surpreende, no entanto, não estamos preparados para boa parte das coisas que a vida ainda tem para nos oferecer. Se elas são boas, nos iludimos e perdemos as estribeiras. Se forem ruins, caímos em desgraça e as estribeiras se perdem em nós. A verdade é que algo muito surpreendente está para acontecer, e esta fala não possui contexto religioso das correntes que poluem nossos e-mails.
Estava certo o apóstolo Pedro quando mencionou duas palavrinhas em seus escritos. Sóbrios e vigilantes. Acredito que nestes dois adjetivos esteja o segredo de uma vida serena que nos leva a lidar com o surpreendente de uma forma menos traumática. É preciso, sem sombra de dúvida, ter um conceito lúcido das coisas que estão relacionadas à vida, senão corremos um risco enorme de tomar um grande susto. Enfim, a grandeza de um homem está em conhecer a si mesmo de uma forma verdadeira e profunda, porque grande ironia é conhecer o mundo inteiro, mas ser surpreendido pelo seu próprio reflexo no espelho.


Sede sóbrios e vigilantes”. (IPedro 5;8)

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Uma educação de laboratório

O agrotóxico protege os alimentos da ação dos insetos e pragas, entretanto, eles são extremamente nocivos a nossa saúde. Temos um ganho. Uma fruta bonita e sem nenhuma mancha. Mas, temos uma perda. O organismo é afetado instantaneamente por isso. Uma infinidade destes tóxicos são causadores de doenças, alergias, e em último caso, câncer. Nós até desenvolvemos uma forma de proteger os alimentos das pragas, mas ainda não conseguimos aliar a tecnologia que é boa e saudável ao mesmo tempo. Ou seja, existe uma preocupação com a maçã em suas perspectivas lucrativas mas não com as consequências tóxicas que ela pode causar em nosso interior. Nesta relação de ganhos e perdas, acredito que estamos saindo no prejuízo. Talvez seria menos trágico para a saúde comermos algumas maçãs bichadas e manchadas. Enfim, a vida se revela a todo instante nos oferecendo um ganho e uma perda. Desde o nascimento, nas relações e profissões. Cabe a cada um fazer sua matemática. Encontro na educação moderna uma metáfora com este cenário. Estamos usando alguns tóxicos para cuidar que os pequeninos estejam imunes às doenças, ao mundo, as bactérias, e tenho minhas dúvidas se isso não acaba fazendo mais mal do que bem. Parece-me que esta educação desenvolvida em laboratório é uma fórmula excelente para os pais, todavia não tanto para os filhos.

As crianças começaram a dominar os adultos, e não aceitam outra forma de vida, que não seja dar as cartas. Os papais querem tempo, pois estão esgotados. Os pequenos querem todo o tempo do mundo para elas. Querem todos os olhares, toda a atenção, todo o cuidado. Elas parecem ansiar ser o centro do universo. Numa geração atordoada pelo stress e pelo trabalho, lidar com esta realidade é desgastante física e emocionalmente, e isso não podemos negar. A verdade é que ninguém está disposto e com energia o suficiente para educar um filho, embora todos alimentem o sonho de tê-los. Com pais cansados, estressados, angustiados e muitas vezes depressivos, educar um filho sem os tóxicos da indústria do entretenimento, tornou-se tarefa impossível.

A televisão é incrível. Aquieta as crianças e os adultos. Ela
absurdamente acabou com o diálogo familiar.
Os papais modernos até são inteligentes, mas não são criativos, muito menos divertidos. São chatos e turrões. Querem educar as crianças sob as rédeas das “super nanis”, mas sequer conseguem fazer seus filhos sorrirem. Os filhos parecem fazer parte da rotina profissional de suas vidas. Algo mecânico e artificial. Sem criatividade e alegria, nós então nos rendemos as facilidades do entretenimento. Compra-se alegria, compra-se educação, compra-se  felicidade, compra-se brincadeiras. Comprar, comprar e comprar. A verdade nua e crua é que, passado a empolgação do nascimento e a novidade do nenenzinho, muitos homens e mulheres desejam ardentemente que seus filhos durmam e assistam TV. Que, em outras palavras, se calem e parem de incomodar. Ou os pais entretem seus filhos para poderem ter “paz”, ou então enlouquecem. O foco moderno, desculpe a sinceridade, ainda é o nosso umbigo. Quando percebemos que eles roubaram nosso tempo, nossa energia, nosso tudo, então tentamos arranjar alguma fórmula que possa nos devolver a antiga individualidade perdida. Mas a noticia ruim é que os pirralhinhos estão com as cartas na manga. No supermercado, no restaurante, nas praças, nas sorveterias, nas lojas, ou em casa. Eles choram, gritam, esperneiam. Eles querem coisas. Nós queremos paz. Eles querem comidas. Nós queremos paz. Eles querem brinquedos e, nós, somente queremos paz. Literalmente eles querem o controle da TV para assistir Discovery Kids na melhor parte do sofá. Quando sentem fome dão um gritinho manhoso pedindo o mamá e fazem um chorinho quando querem uma cobertinha. Eles estão no domínio de tudo, e isso, gera desconforto e cansaço. Relembrando meus tempos de criança, sinto que algo mudou. Nós não tínhamos este controle, nem éramos o centro do universo familiar. Fazíamos parte de um todo, e tínhamos que nos enquadrar nesta realidade.  Algumas palmadinhas nos faziam engolir o choro. Hoje somente um cartão de crédito pode resolver esta parada. Esta geração de crianças não está sendo educada, está sendo “entretida”.

Video game
A solução disso tudo? Não sei. Talvez a criatividade bem humorada que interage com amor é muito mais produtiva e saudável do que estas maluquices contemporâneas. Poderemos desenvolver um futuro de meninos e meninas robotizadas por serem criadas debaixo de um padrão profissional.  Quando estas princesinhas descobrirem que são rainhas, entenderemos a historinha do agrotóxico. Os tóxicos modernos de entretenimento parecem estar aparentemente preservando nossas crianças, mas na verdade, estão preservando os pais. Sem criatividade, bom humor e tempo, os papais precisam financiar alegria todos os dias. Isso sai caro, muito caro! Sinceramente, com estas toxinas, eles até ficam comportadinhos, mas esta fórmula que troca comportamento e responsabilidade por brinquedos e sorvetes, é apenas uma maneira comercial de poder controlar pessoas. Os filhos devem ser educados, não entretidos. Devem ser corrigidos, não castigados. Sem este entendimento simples, estas crianças irão ser vitimas de suas próprias ideias e percepções. Termino com Içami Itiba, “quem ama, educa!”.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Brasil de tragédias

Em um segundo sonhos se acabam. Literalmente um mundo desmorona transformando em noticia o anonimato da vida suburbana e difícil de uma centena de trabalhadores brasileiros. A politica nos empurrou para as margens e becos, para os morros e aterros. A corrupção e o desleixo vaidoso de nossos governantes permitem que todos os janeiros e fevereiros, nossas ruas se transformem em rios, os morros em cemitérios, as casas em destroços, e sonhos em tragédia. 
Na metade do ano teremos que ver estas cenas em reprise, mas em Santa Catarina. Ouviremos nas margens plácidas de nossos rios, gritos de desespero. Brados retumbantes destes plácidos córregos irão lacrimejar nossos olhos. O raio vívido de esperança será tragado pela morte, pois nosso futuro parece não ter um céu formoso, nem tampouco risonho.
Estamos acabando com as florestas do nosso país e muito em breve nossa bandeira poderá facilmente trocar o verde das nossas matas pelo “laranja” de tantos corruptos. A culpa de tudo isso não é da natureza, muito embora nós não a conheçamos. A culpa dessas cenas absurdas e revoltantes são daqueles que nós conhecemos muito bem. Certamente eles estão de recesso ou de férias em algum lugar sem barrancos e barracos. Enquanto escrevo este texto existem alguns homens que estão sendo asfixiados. Ou estão debaixo de toneladas de terra, ou então, estão debaixo de uma carga tributária criminosa, de um serviço público estéril e de uma justiça ridícula. Neste Brasil, tudo me leva a crer que de qualquer forma morreremos tragicamente. Ou soterrados pela violência, ou imersos na burocracia, ou afogados nos juros, ou então asfixiados pela injustiça.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Meu ateísmo cristão

Ao observar os melindres religiosos na personalidade humana, alguns homens lúcidos começaram a questionar esta violência a inteligência humana. Passaram a defender os valores humanos, racionais e relacionais e, de alguma forma, promoveram um novo olhar ao pensamento místico. 

O intuito dos ateus sempre foi devolver ao homem a serenidade que a religião roubara. 

O cenário de corrupção social, política e religiosa fundamenta que o homem não tenha sido evolução de larvas, mas de algumas bactérias que habitam no intestino. 

Algo está errado, e diferente do que se pensa, o maior problema da razão humana não é discutir a origem do homem, mas no que ele se transformou. Este é um ponto que deveria se refletir.  

O culpado seria Deus, mas na verdade, são seus supostos filhos, discípulos, mestres e apóstolos. São eles que geram indagações. Esta suposta "imagem" de Deus que deveria reluzir graça e luz, entendimento e paz, é na verdade a sombra de um vale que lembra vergonha e medo, raiva e dor. 

A imagem e a semelhança daqueles que estão aos "pés da cruz" não refletem o sorriso e a humildade descritas na Cruz dos quatro evangelhos. Estão, no entanto, atolados em dívidas e suas vidas se resumem em cumprir interesses comerciais e políticos. A dúvida a respeito da existência de Deus não se iniciou por causa da invisibilidade do Criador, mas por causa da perversidade dos "filhos".

Aliás, a maioria dos céticos, na verdade, não descreem em Deus totalmente, apenas não acreditam nestas manifestações divinas que as pessoas possuem. O ateísmo é como que um mecanismo de defesa desenvolvido pelo homem, para se proteger da irracionalidade emotiva da religião.

De fato, sou um ateu fervoroso diante deste deus que precisa ser carregado pelos ombros. Não acredito que Deus pode ser exemplificado, lapidado ou desenhado pela imaginação humana ou pela habilidade de um artesão. 

Este diminutivo divino revela o deus cultural segundo nossa própria imagem, ideia e pensamento. Esta divindade proveniente dos nossos costumes é apenas um simples intelectualismo místico realizado a partir do homem, e não de Deus. 

Ele não existe, mas vive através da força do pensamento tradicional.  

O homem descobrirá daqui mais alguns anos ou séculos, que os ateus eram mais espirituais do que os religiosos. Enfim, Deus não é o reflexo da imagem do homem. Foi a falta da imagem Dele cravada em nosso coração e de seus reflexos benignos em nosso ser, que nos levou a tentar desenhá-lo em pedaços de madeira ou gesso.

Se Deus decidiu ser invisível, porque tentar materializá-lo?

Ele vive na invisibilidade sutil daqueles que caminham na verdade e no amor. O resto é crendice ou loucura, mercado sagrado ou pura invenção religiosa.
 
 
 

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Pequenas perdas, grandes prejuízos


Um caminhão carregado de grãos estava na minha frente. Enquanto eu não conseguia ultrapassa-lo, inúmeros grãozinhos caiam da carroceria e batiam no meu para-brisa. Para quem está carregando 30 toneladas de soja, alguns grãozinhos parece não fazer muita diferença. Mas se formos pensar que todos os caminhões sofrem estas perdas, teremos números incrivelmente assustadores. Segundo o IBGE, o Brasil desperdiça anualmente cerca 7,6 milhões de toneladas de soja, milho, arroz, trigo e feijão. O equivalente a 8,7% da produção nacional de grãos escapa pelas frestas das carrocerias dos nossos caminhões. Estima-se que o Brasil perca R$ 2,7 bilhões de reais a cada safra com o derrame de grãos durante o transporte rodoviário. Ou seja, aqueles grãozinhos que os passarinhos comem no acostamento de nossas rodovias poderiam resolver a fome em grande parte deste Brasil.

A vida possui algumas semelhanças a este cenário. Em nossas viagens, ideias, casamentos, amizades, lutas, sonhos e profissões. Ao passar dos anos algumas coisas se perdem. Nós sabemos disso, mas não lutamos contra. Parece que alguns poucos grãos não nos fazem falta. Então viajamos despreocupados sabendo que as pequenas perdas não causam grandes prejuízos. A nossa matemática nos permite conviver com este déficit. Penso que este seja o nosso problema. Não choramos as pequenas perdas, por isso não conseguimos lidar com as grandes tragédias. Não nasce um alcóolatra do dia para a noite, nem um obeso numa taça de sorvete. São as perdas diárias que nos levam as grandes derrotas.

É deste acontecimento visível aos nossos olhos, mas invisível ao nosso coração que os casamentos terminam, que os sonhos se frustram, que as amizades esfriam, que o caráter enferruja, que Deus desaparece das nossas ideias. Algo está se perdendo pela estrada da vida. Nós estamos cada dia piores. Mais mesquinhos, mais ignorantes, mais estressados. Menos amáveis, menos pacientes, menos confiáveis. Sim, estamos esvaziando de braços cruzados. Neste ano, amores irão fracassar pelo descaso ignorante. Teremos enormes prejuízos, porque aquilo que deveria estar guardado em nosso coração se transformará em comida de passarinho na beira de uma estrada qualquer.

O meu desafio é encontrar as frestas que existem em meu coração. Lutar contra esta realidade que pode acabar com meu casamento, denigrir minha moral, roubar a minha alegria e ferir meu caráter. Eu preciso tapar estas rachaduras ainda presentes em meu viver.
Aquilo que se perde ao longo de uma viagem pode não fazer muita diferença. Mas se todos estiverem perdendo os valores e seus amores, como poderemos calcular estes prejuízos? Que Deus nos ajude a guardar as sementes e os atributos que um dia Ele confiou a cada um de nós.  

E a paz de Deus que excede todo o entendimento, guardará o vosso coração e a vossa mente em Cristo Jesus. (Filipenses 4;7)

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Entre a armadilha e a oportunidade

A natureza, talvez impensante, revela em sua sutileza, mais inteligência do que nossas próprias espertezas. Aprendi isso com algumas tilápias no sítio do meu sogro. Elas conseguiam discernir com maestria a diferença entre o "pão alimento" e o "pão isca". Com toda confiança abocanhavam os pães que flutuavam livremente na superfície do lago, mas meu anzol especialmente camuflado por um pãozinho carinhosamente iscado, ficava ali, boiando, esquecido, até que amolecesse suficientemente para se desprender do anzol. Logo que isso acontecia, as tilápias comiam minha antiga isca com calma e tranquilidade. Palmas para elas. Nós seres humanos ainda não conseguimos fazer esta distinção entre o que é armadilha para o que é oportunidade.
O ímpeto em experimentar e ter, viver e surpreender, tornou o homem vitima da sua própria fome. Essa irrefletida forma de amar, de crer em Deus, de viver em comunidade e principalmente de ganhar dinheiro, fisgou boa parte dos meu amigos. Já diria o antigo provérbio bíblico, “Há caminhos que parecem direito ao homem, mas no fim são caminhos de morte”. Tenho uma grande desconfiança que existem inúmeros destes anzóis disponíveis desde o raiar do dia. Os anzóis são assim. Eles fisgam a paz e controlam o viver. Quem mordeu uma isca não consegue mais ser livre, porque na verdade, o futuro de quem foi fisgado é ficar perto do barranco, sendo controlado pelas mãos de outras pessoas. Existe uma Cracolândia de homens fisgados e um cemitério cheio de escravos que definharam ante as algemas da servidão. 

Deus providencia pão, mas o mal, providencia o anzol. Saber discernir entre o que é aparentemente bom, daquilo que é verdadeiramente perfeito, é fruto de quem tem uma vida aos pés do entendimento divino. Amanhã pela manhã, muitos pães irão amanhecer na superfície das suas águas, mas nunca se esqueça. O mundo está cheio de anzóis.
"Se, pois o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres". (João 8;35,36)