terça-feira, 9 de outubro de 2012

A mulher cananéia

(Mateus 15;21-29)

Eis um momento na vida de Jesus que trouxe demasiadas interrogações em minha vida. Por diversas vezes passei as páginas da minha bíblia sem compreender plenamente este texto, a não ser, a fé e o desespero provenientes daquela alma aflita. Nunca compreendi a frieza de Jesus diante daquele cenário tão difícil. Ele jamais fora tão indiferente ao desespero de alguém. A conversa com a mulher samaritana e a cura do servo do centurião, viabiliza o entendimento de que Jesus não separava os gregos (gentios) a um povo des-Graçado da presença e do amor de Deus.
Logo, não é a fé impulsionada pelo desespero o maior legado deste texto, mas a reação de Cristo, que também, não tem nada a ver com experimentar aquela mulher. Conhecendo Jesus e sua história, tudo nos leva a crer que Ele não iria despedir aquela pobre estrangeira, que o encontrou depois de viajar muitos quilômetros, sem libertar sua filhinha daquele mau, tendo ela fé, ou não.
Jesus não reduziu ou monopolizou o poder, a grandeza e o amor de seu Pai. Ele apenas espalhou, desmaterializando a fé num templo, a vida da letra, o amor na lei. Por três vezes Ele age de maneira indiferente com aquela sírio-fenícia. Em primeiro lugar não responde palavra. Logo depois, diz o Cristo, que fora enviado tão somente as ovelhas da casa de Israel. Por fim, metaforicamente, chama seu povo por filhos, os estrangeiros de cachorrinhos, e afirma que não seria bom tirar o pão daqueles, para desperdiçar com estes. Tudo que o superego judaico ansiava escutar da boca do seu Messias havia sido proferido por Jesus naquele dia. Indiferença, desprezo e separatismo.
Entretanto, aqui está uma das mais profundas mensagens aos judeus enviadas pelo Cristo. Está um dos mais importantes ensinamentos ao povo judaico de toda a história. Através daquele momento, uma mensagem viva estava sendo enviada, trazendo um exemplo prático daquilo que dissera há alguns dias atrás:
“Muitos virão Ocidente e do Oriente e tomarão lugares a mesa com Abraão, Isaque e Jacó. Ao passo que os filhos do reino serão lançados para fora, nas trevas”. (Mateus 8;11)
Enquanto, os judeus negavam veementemente o Pão da Vida, haviam aqueles que ansiavam desejosamente se alimentar somente de suas migalhas. Jesus evidenciou qual foi a sua missão: Vim para as ovelhas, no entanto, foram os cães que me receberam.
“Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem chamados filhos de Deus, a saber, os que creem em seu nome”. (João 1;11;12)
Trouxe o Pão para os filhos, mas foram os cachorrinhos que se fartaram. Enegrecidos pelos seus ritos grotescos e suas orações prolongadas, as ovelhas preferiram viver nas cercas das leis religiosas, do que livres nos pastos verdejantes com seu Pastor. Enquanto isso os cachorrinhos, esfomeados por seu desespero, pulavam tentando se alimentar desse Pão cheio de paz e misericórdia, amizade e eternidade. Quando Jesus pisou a esta terra famigerada de graça, então, farelos de amor foram sendo repartidos entre os povos e nações. Por isso, tantas pessoas caíram de joelhos diante de Cristo. Estavam somente a comer das migalhas daquele Pão Vivo, que, sendo repartidas por todos os homens e mulheres, trazia cura e liberdade, paz e amor. Nos derradeiros momentos de Cristo com seus amigos, ele tomou a Si mesmo, deu graças, partiu e deu aos seus amigos dizendo: “tomai e comei, este é o meu corpo em migalhas por vós”! Nestes farelos de amor que os cachorrinhos se tornaram filhos.
Enganam-se aqueles que acham que Jesus foi partido na cruz. Ele já estava despedaçado desde que anunciara a chegada do reino dos céus. Se do pó fomos feitos criaturas, das migalhas somos transformados em filhos!

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