terça-feira, 2 de julho de 2013

Consciência X Comportamento


Se o teu olho ou sua mão lhe fizerem tropeçar melhor é viver sem eles. (Mt 5;29)

Para Jesus convém ao homem perder um dos seus membros a usa-los de forma errada. De fato, em Deus todos se tornam “caolhos” e “manetas”, visto que muitas atitudes, crenças e posturas acabam sendo abandonadas na medida em que se caminha em direção a Deus.

Ninguém herda o reino de Deus sem estar mutilado da sua própria natureza.

Neste momento do Sermão da Montanha estava Jesus dizendo sobre aqueles que enxergaram seus defeitos e ante esta descoberta escolhem limitar sua existência, do que estar diante da iminência da sua fraqueza. Ele estava falando sobre alguém que foi tomado pela consciência de seu próprio mal e da sua incapacidade humana em lidar com esta realidade.

A verdadeira consciência surge quando o homem alcança a compreensão profunda e simples do que se pode, mas que na verdade não se deve. É o conhecimento intimo da linha tênue que separa o licito do ilícito. Não é uma regra estabelecida para todos, mas uma consciência individual que floresce intimamente dentro de cada ser humano. De fato, todo homem precisa saber de quem, por que e o que deve se afastar, arrancar e eliminar em si mesmo.

Assim, a vida em Cristo não é uma fábrica de comportamentos embutidos em alta escala, mas uma reflexão interior e pessoal daquilo que é bom, perfeito e agradável para cada um. De fato, o homem pode todas as coisas naquele que o fortalece. Ele pode fazer e realizar tudo em Deus, e na consciência que nele existe. Aquilo, no entanto, que fere a sobriedade e a serenidade do ser na sua relação intima com Deus e com as pessoas é suficiente para ser evitada, banida, arrancada.

O fato de a religião ser mais proibitiva do que ativa ao senso humano não é por significativa maldade, mas por severa proteção. A religião parte do principio que é melhor proibir uma criança mexer numa faca do que ensina-la a manusear o instrumento.

Logo, no desejo de evitar o erro, se proíbe qualquer possibilidade de acerto.

De fato, o mundo religioso se tornou escravo do comportamento sem consciência. A religião é fria, não porque é repetitiva, mas porque um sistema não gera individualidades. Tudo que é envolvido pelo sistema é fabricado, é produzido, é embalado. A religião é uma indústria. Ela gera de fora para dentro, pelo viés do comportamento exterior, não de dentro para fora através da consciência de cada ser.

Então, o mundo está cego, mas não é por causa dos seus erros, mas pelos medos. O filho pródigo é um bom exemplo. Ele rompeu com as cercas do comportamento e na sua miséria descobriu sua consciência. Quando esteve diante do erro, foi quando fez seu maior acerto. Foi quando percebeu sua capacidade de errar que se descortinou toda sua vontade de acertar.

Enriquecido pelas suas perdas, voltou consciente do lugar que deveria permanecer para sempre. Os erros e os defeitos nem sempre são tão maléficos a vida do homem. Jesus jamais impediu alguém de atravessar as fronteiras do certo justamente por causa dessa condição pedagógica que o arrependimento pode florescer. Um homem que erra e é tomado pela consciência do seu erro será para sempre alguém muito mais envolvido pela Graça e pelo amor de Deus do que aquele que sempre se orgulhou no bom comportamento ético.

O Pai pode impedir a saída de um filho mutilando sua capacidade de caminhar, ou então, arrancar um dos seus olhos, mas não é isso que acontece em Deus. O pai do pródigo se despede ansioso que seu próprio filho chegue sozinho a forte convicção daquilo que ele mesmo precisa arrancar da sua vida.

E foi bem longe que o filho se tornou de fato filho. Foi bem distante que descobriu seu próprio coração e suas mais profundas necessidades. Deus não limita fronteiras físicas, legalistas ou existenciais, mas liberta, e isso faz para cada um possa compreender a si mesmo a partir de suas próprias experiências. Deus permite as idas e vindas, porque a somente um homem livre pode ter uma opinião bem definida em sua própria mente. (Rm 14;5b)

Conhecendo a si mesmo, está o homem apto a arrancar aquilo que é necessário. Ninguém fará isso por ele, visto que enxergou onde estão seus maiores vazios.  

Então, o filho mais velho ficou não porque estava livre para escolher, mas porque as cercas do comportamento lhe impediram. Ficou em casa não por causa da sua consciência de filho, mas porque teve medo de perder regalias do sistema que privilegia aquilo que é ético e moral. O mais novo tomara posse de seus bens pela força da sua maldade. O mais velho tentara fazer o mesmo barganhando sua suposta bondade.

O homem religioso pode ser o mais comportado cidadão, mas está limitado nas fronteiras humanas do legalismo e das aparências. Estará sempre caminhando na beira das farpas dos arames, orgulhoso da sua própria incapacidade de viver livre.

De fato, não beber em demasia, respeitar seu cônjuge e ser honesto nos relacionamentos é um comportamento maravilhoso, no entanto, se todas essas atividades são esforços exteriores, sem antes ser a mais profunda natureza interior, tudo é apenas um disfarce, uma hipocrisia, um jogo.

É importante saber que a liberdade em Cristo não é para todos, posto que, viver em liberdade é muito mais difícil que viver preso. Para muitos é melhor a LEI que aprisiona e diz não, do que a GRAÇA que absolve e diz sim.

O filho mais jovem não é apologia para o abandono das regras e leis, mas apenas o vislumbre divino que o comportamento não define caráter, nem verdade. O comportamento, quando não gerado pela consciência se transforma apenas numa formula de manipular pessoas. Tudo que é bom acontece antes no coração para depois viver na natureza das atitudes.   

Por isso, “Bem aventurado é o homem que não se condena naquilo que aprova. (Rm 14;22)

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